Canoagem

Dor, saudade e revolta: drama dos familiares de canoísta morta em treino da seleção

Cerca de 20 meses após tragédia com Dienifer, caso segue sem esclarecimento; além de depressão e doença na família, Catusa, uma das irmãs, revela descaso da CBCa
08/10/2015 08:03 - Atualizado em 08/10/2015 08:36
Por Francisco Junior
RIO

A morte da canoísta Dienifer D’Avila por afogamento “abriu uma cratera sem fim no chão” da família Loreto. A matriarca da família adoeceu por não se conformar em perder a filha e ainda sofre com lembranças da caçula. Estefane, que seguia os passos da irmã Dienifer e também treinava canoagem, abandonou a modalidade e passa por crises constantes de depressão. E Catusa Benedeti, a segunda mais velha entre as quatro meninas da casa, dedica a maior parte do seu tempo na tentativa de obter informações sobre o que realmente aconteceu no dia da tragédia. E juntas, elas clamam por justiça em um caso que está longe de qualquer solução.

O trágico acontecimento ocorreu no dia 21 de fevereiro de 2014. A atleta Dienifer, então com 15 anos e integrante da seleção de base da modalidade, estava treinando no Yacht Club Paulista, em São Paulo, que fica na represa Guarapiranga, na capital paulista, quando morreu afogada.

- A Dienifer não sabia nadar. Isso, eu afirmo com certeza. O treinador diz que estava dando aulas para ela na piscina, mas o que ela nos passou era que estava com dificuldades de aprender e que ainda não tinha conseguido. Não posso apontar culpados. Só posso dizer que, se existe um culpado, esse culpado estava lá - afirma Catusa, em entrevista exclusiva para o ahe!.

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Em conversa emocionada com a irmã de Dienifer, realizada no final de janeiro e somente divulgada agora por Catusa Benedeti, o responsável pelos atletas no dia da tragédia, Waliton Cirilo de Oliveira, chegou a revelar que pensa na morte da atleta todos os dias. O treinador principal, Marcus Ito, precisou ir ao hospital ver a esposa que estava grávida e perdeu o filho. Diante disso, apenas o auxiliar Waliton cuidava das seleções júnior masculina e feminina (quatro equipes).

Dienifer Loreto era uma das revelações da equipe de velocidade da seleção brasileira - Reprodução

A gaúcha, que era apontada como revelação da equipe de velocidade, deveria entrar na água acompanhada por Andrieli Estefani, com quem fazia dupla nos treinamentos. Mas a companheira se atrasou por algum tempo. Mesmo sozinha, sem colete (a maioria dos atletas não utiliza a proteção por estética) e sem barco de apoio próximo para prestar suporte, Dienifer pediu ao auxiliar para iniciar o treinamento.

- Fracassei como técnico e como pessoa quando permiti que ela entrasse na água minutos antes de mim. Ela estava tendo aulas de natação e cruzava a piscina várias vezes. Mas, confesso que é diferente. Não esqueço o que aconteceu. Penso nela sempre. Aquele foi o pior dia da minha vida. Uma série de acontecimentos levaram a morte dela. Mas eu tenho boa parte da culpa - escreveu Waliton durante a conversa pelo Facebook com a irmã de Dienifer.

Com a saudade aflorada, Catusa comenta, ainda durante a conversa pela rede social, que muitas vezes parece escutar as risadas de Dienifer. Ela também revela que a família segue com o costume de olhar para a estrada na esperança que a jovem esteja chegando. Ficam as boas lembranças e seguem as exigências feitas pela família para que as pendências sejam cumpridas.

‘Até hoje, não sabemos nada sobre o seguro de vida da Dienifer’

Segundo conta Catusa, a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) somente prestou ajuda para a família Loreto nos momentos seguintes à tragédia, quando arcou com os custos das passagens aéreas para buscar o corpo, traslado e funeral. Depois disso, ninguém mais da CBCa se manifestou, nem mesmo para informar sobre o contrato de seguro de vida assinado pela atleta.

- Não nos passaram nem qual era a seguradora com que a Dienifer tinha assinado um contrato de seguro de vida. Até hoje não temos maiores informações sobre esse seguro. E os advogados só nos informaram que é um processo demorado - exclamou.

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A canoísta gaúcha tinha 15 anos e estava a serviço da seleção brasileira quando aconteceu a tragédia - ReproduçãoOutro a procurar Catusa Benedeti através das redes sociais foi Wladimir Sizenando Moreno. Ele trabalhava como coordenador, na época da morte da jovem canoísta, e aponta o centro de treinamento da Academia Brasileira de Canoagem, no Yacht Club Paulista, como depressivo.

- Minha indignação pode não ser igual a sua e de sua mãe, mas saiba do fundo do meu coração que sinto um infinito de sentimentos que não me deixará esquecer isso jamais. Nunca mais trabalhei bem lá e, graças a Deus, não faço mais parte daquela lama - disse Wladimir, que enumerou os problemas no local.

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- É triste dizer que os impostos destinados ao esporte foram mal utilizados. Melhor, não foram utilizados. E tenho como provar isso. Não tinha TV, geladeira, sofá. É um local totalmente depressivo. Infelizmente, isso é só a pontinha de um iceberg - completou Wladimir.

Procurada pelo ahe! para esclarecer a questão do seguro de vida de Dienifer Loreto, além das críticas de Wladimir Sizenando Moreno, a CBCa informou que somente o advogado da entidade responsável pelo caso da canoísta poderia falar. No entanto, não houve retorno até o fechamento da matéria.

Como afirmou Catusa durante a conversa com Waliton Cirilo, apesar de Dienifer estar a serviço da seleção brasileira, a família Loreto foi a única a perder algo. Ela admite que continua “sem chão” por perder a irmã, que também era amiga e companheira. E lembra que a ferida no coração de cada familiar continua aberta e sangrando.

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